Em algumas ilhas do Caribe, moradores relatam perda de acesso às praias enquanto resorts de luxo avançam sobre áreas históricas e comunidades tradicionais
Praias de areia branca, mar azul cristalino e paisagens que parecem cartão postal. O Caribe continua sendo um dos destinos mais desejados do planeta. Mas, por trás das fotos perfeitas vendidas ao turismo internacional, cresce uma discussão delicada em ilhas como Barbuda, Jamaica e Granada. Moradores locais afirmam que estão perdendo o acesso às próprias praias enquanto empreendimentos milionários transformam áreas históricas em espaços exclusivos para turistas e investidores estrangeiros.
Durante décadas, as praias de Barbuda foram parte da rotina da comunidade local. Lugares simples, vivos, cheios de encontros, pescadores, música, conversas demoradas e crianças correndo pela areia. Não existiam portões. Nem cancelas. Nem placas proibindo entrada.
Hoje, parte dessa realidade começa a desaparecer.
Na pequena ilha caribenha de Barbuda, moradores denunciam que resorts de luxo e grandes incorporadoras estrangeiras passaram a ocupar áreas tradicionais da comunidade após a devastação causada pelo furacão Irma, em 2017. A tragédia destruiu casas, comércios e mudou completamente a dinâmica da ilha.
Entre as histórias mais simbólicas está a de Miranda Beazer, antiga proprietária do tradicional Pink Sands Beach Bar. O espaço era conhecido por reunir moradores locais depois das missas de domingo, festas simples e encontros familiares à beira-mar.
Após o furacão, o bar foi destruído. Antes mesmo de conseguir reconstruir o local, Miranda afirma que empresas estrangeiras avançaram sobre a região. Desde então, ela trava uma disputa judicial para tentar recuperar o acesso à área que considera parte da sua história e da sua comunidade.
Em Barbuda, a terra possui um sistema comunitário herdado do período pós-escravidão. Na prática, os moradores não são donos privados da terra, mas possuem direito coletivo sobre ela e deveriam participar das decisões relacionadas a grandes projetos imobiliários.
O problema, segundo ativistas locais, é que novas legislações passaram a flexibilizar essas proteções.
Um dos projetos mais comentados da ilha atualmente é o luxuoso The Beach Club Barbuda, empreendimento ligado ao ator Robert De Niro e ao bilionário australiano James Packer. O resort promete hotéis exclusivos, residências milionárias e uma experiência de luxo em uma das regiões mais preservadas do Caribe.
Enquanto investidores enxergam oportunidade, moradores relatam sensação de exclusão.
Segundo ativistas locais, algumas áreas da praia passaram a ter acesso limitado após a construção de desvios e estruturas privadas. O medo entre parte da população é que Barbuda deixe de ser uma ilha da comunidade para se transformar em um destino pensado apenas para turistas milionários.
A discussão não acontece apenas em Barbuda.
Na Jamaica, movimentos sociais afirmam que o número de praias acessíveis gratuitamente à população local diminuiu drasticamente nos últimos anos. Grupos ativistas denunciam que hotéis e resorts passaram a controlar áreas costeiras inteiras, cobrando taxas ou restringindo o acesso de moradores.
Segundo organizações locais, menos de 1% do litoral jamaicano continuaria totalmente livre para uso da população sem restrições.
Em Granada, o cenário também preocupa moradores e ambientalistas. O crescimento acelerado do turismo internacional vem aumentando a pressão imobiliária sobre áreas costeiras antes ocupadas por pequenas comunidades tradicionais.
Para governos da região, o turismo representa uma das maiores fontes de renda econômica. O Caribe é considerado uma das regiões mais dependentes do turismo em todo o mundo. Resorts, hotéis de luxo e investimentos internacionais movimentam bilhões de dólares todos os anos.
Mas a pergunta que começa a surgir entre moradores locais é simples e dolorosa.
Até que ponto o paraíso continua sendo um paraíso quando quem nasceu nele deixa de ter espaço?
O debate vai além do turismo. Fala sobre pertencimento, memória, identidade cultural e direito à terra. Em muitos desses lugares, praias não são apenas paisagem bonita. São parte da vida cotidiana, da pesca, da infância e das tradições familiares.
E talvez seja justamente isso que torne essa discussão tão sensível.
Porque o turista passa alguns dias.
Mas quem mora ali tenta preservar uma história inteira.

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