CASTELO DE JOSÉ RICO PODE VIRAR MUSEU SERTANEJO

CASTELO DE JOSÉ RICO PODE VIRAR MUSEU SERTANEJO

Mansão construída ao longo de 24 anos em Limeira pode ganhar nova vida como espaço dedicado à memória da música sertaneja brasileira


O lendário castelo idealizado por José Rico, em Limeira, interior de São Paulo, voltou ao centro das atenções após a prefeitura declarar o imóvel de utilidade pública. A ideia é transformar o espaço, marcado por décadas de obras inacabadas e histórias curiosas, em um museu voltado à música sertaneja. O projeto ainda está em fase inicial, mas reacendeu o interesse dos fãs pela história do cantor e pelo enorme castelo que se tornou quase uma lenda urbana no interior paulista.

A poucos quilômetros da Rodovia Anhanguera, ergue-se uma construção que parece saída de um filme antigo. Torres, corredores gigantescos, dezenas de quartos e um silêncio que carrega saudade. O castelo de José Rico sempre foi mais do que uma mansão. Era um sonho pessoal do artista. Um daqueles sonhos grandes demais para caber no papel.

A propriedade ocupa uma área de aproximadamente 48 mil metros quadrados e é avaliada em cerca de R$ 15 milhões. Dentro dela está o famoso castelo, com mais de 100 quartos, cuja construção levou cerca de 24 anos e jamais foi concluída. Desde a morte do cantor, em 2015, o imóvel passou a enfrentar abandono, disputas judiciais e tentativas frustradas de leilão.

Agora, a Prefeitura de Limeira deu o primeiro passo para tentar mudar esse destino.

O decreto de utilidade pública permite que o município faça estudos técnicos, jurídicos e econômicos para avaliar uma possível desapropriação parcial da área onde está o castelo. Segundo a administração municipal, a intenção é transformar o espaço em um polo cultural dedicado à música sertaneja, sem utilizar verba pública direta na obra, buscando apoio da iniciativa privada e de programas estaduais e federais.

Para muita gente, a ideia faz sentido.

José Rico sempre teve ligação profunda com aquele lugar. Amigos próximos contam que ele acompanhava pessoalmente as obras, desenhava ideias, modificava estruturas e imaginava transformar o espaço em algo muito maior do que uma residência. Havia planos para estúdio musical, hotel, loja temática e até uma gravadora.

Os moradores da região dizem que o cantor tratava o castelo como extensão da própria alma. Não havia engenheiro fixo. Não havia pressa. Existia apenas o sonho.

E talvez seja justamente isso que faz o lugar carregar tanta força simbólica até hoje.

O castelo também ficou conhecido pela música “Castelo”, lançada no álbum “De Cara com a Saudade”, em 1996. Na letra, José Rico canta sobre construir um castelo bonito para presentear a pessoa amada. Com o passar dos anos, a canção acabou se confundindo com a própria história do imóvel.

Enquanto isso, o processo judicial envolvendo a propriedade segue ativo. O imóvel foi penhorado para pagamento de dívidas trabalhistas deixadas pelo cantor. Desde 2021, diferentes tentativas de leilão aconteceram, mas nenhuma atraiu compradores.

O abandono também começou a deixar marcas visíveis. Estruturas desgastadas, infiltrações e áreas tomadas pelo mato passaram a contrastar com a grandiosidade do projeto original. Ainda assim, o castelo nunca perdeu o fascínio popular. Pelo contrário. Virou ponto de curiosidade, nostalgia e admiração para fãs da música sertaneja raiz.

Se o projeto do museu realmente sair do papel, o espaço poderá ganhar um novo significado. Não apenas como homenagem a José Rico, mas como preservação de uma parte importante da cultura popular brasileira.

Porque no fim das contas, alguns lugares sobrevivem justamente pelas histórias que carregam.

E poucas histórias no sertanejo brasileiro parecem tão grandes quanto a daquele castelo perdido no interior de São Paulo.