TURISMO EM LAJES DA ROCINHA LEVANTA DEBATE SOBRE “ROMANTIZAÇÃO DA POBREZA”

Vídeos virais gravados em comunidades do Rio reacendem discussão sobre limites éticos do turismo em áreas vulneráveis


Nos últimos meses, vídeos de turistas gravados em lajes da Rocinha, no Rio de Janeiro, viralizaram nas redes sociais. A experiência inclui gravações com drone e vista panorâmica da comunidade, com visitantes pagando cerca de R$ 150 e aguardando até duas horas para registrar imagens. O fenômeno abriu um debate importante sobre turismo em favelas e a chamada romantização da pobreza.

O FENÔMENO QUE VIROU CONTEÚDO NAS REDES

Em uma laje com vista para a encosta da Rocinha, turistas se posicionam diante de drones para gravar vídeos que rapidamente ganham milhares de visualizações nas redes sociais. A estética é conhecida: música animada, movimentos coreografados e a câmera se afastando para revelar o labirinto de casas que forma a maior favela do Brasil.

O sucesso foi tão grande que visitantes chegam a esperar até duas horas para filmar seus vídeos. A experiência faz parte de roteiros turísticos que percorrem becos da comunidade, visitam artistas locais e apresentam elementos culturais como rodas de capoeira.

Segundo organizadores desses passeios, o objetivo seria mostrar “o lado positivo da favela” e combater preconceitos históricos associados às comunidades.

ENTRE EXPERIÊNCIA CULTURAL E CRÍTICAS

O crescimento desse tipo de turismo, porém, trouxe um debate intenso.

De um lado, moradores e guias locais destacam que a atividade gera renda e oportunidades de trabalho. Empresas comunitárias formaram guias turísticos e até pilotos de drone que passaram a trabalhar com o fluxo crescente de visitantes.

Alguns moradores afirmam que o turismo ajuda a mostrar uma realidade diferente daquela frequentemente retratada nos noticiários.

A Rocinha, por exemplo, abriga mais de 70 mil pessoas, a maioria formada por trabalhadores que vivem sua rotina cotidiana, muitas vezes invisível para quem olha a favela apenas pela lente da violência.

O RISCO DA “ROMANTIZAÇÃO DA POBREZA”


O ponto mais sensível do debate está na forma como essas imagens são consumidas nas redes sociais.

Especialistas apontam que existe o risco de transformar comunidades complexas em simples cenários para conteúdo digital. Quando isso acontece, problemas estruturais como desigualdade, falta de infraestrutura e violência acabam sendo reduzidos a um pano de fundo “exótico”.

Esse fenômeno ficou conhecido como romantização da pobreza. A ideia de que ambientes socialmente vulneráveis se tornam atração estética para quem observa de fora.

Nesse contexto, a favela deixa de ser vista como um bairro vivo, cheio de histórias, trabalhadores e desafios reais, para virar apenas um cenário visual impactante.

TURISMO RESPONSÁVEL É O DESAFIO

O turismo em comunidades não é novidade no Rio de Janeiro. No passado, alguns passeios chegaram a ser criticados por parecerem um tipo de “safári urbano”, com visitantes observando a vida local sem interação real.

Hoje há iniciativas que tentam mudar essa lógica, valorizando guias locais, cultura comunitária e experiências educativas.

Ainda assim, o crescimento do conteúdo viral nas redes sociais levanta uma pergunta importante: até que ponto o turismo contribui para o desenvolvimento local e quando passa a explorar imagens da desigualdade?

UM TEMA QUE PRECISA DE REFLEXÃO

No momento em que o Rio de Janeiro vive um forte crescimento no turismo internacional, discussões como essa se tornam ainda mais relevantes.

Viajar é também aprender a olhar para os lugares com respeito e sensibilidade.

A favela não é cenário. É casa de milhares de pessoas, com histórias, desafios e conquistas reais.

E qualquer forma de turismo que passe por esses territórios precisa, antes de tudo, reconhecer essa realidade.

Por Gérson Pereira Torres
Fonte: G1 / AFP
Para o UaiSôMochilando