O jato brasileiro que conquistou companhias aéreas, reduz custos e pode mudar a forma como passageiros viajam pelo mundo
A família E2, da brasileira Embraer, vive um momento de forte expansão internacional. Com mais de 500 pedidos firmes e clientes em todos os continentes, o programa aposta em aeronaves menores, econômicas e capazes de atender rotas que nem sempre justificam aviões maiores. O sucesso comercial ganha ainda mais relevância em um mercado marcado por filas de espera para novos aviões. Nesta semana, porém, uma instabilidade global no sistema de GPS afetou temporariamente aeronaves E2 da Azul e provocou cancelamentos e atrasos, embora a Embraer afirme que a segurança dos voos não foi comprometida.
E2 DA EMBRAER GANHA O MUNDO
Tem uma coisa que incomoda no mundo da aviação: o Brasil produz um dos aviões comerciais mais importantes do mercado mundial, mas ainda é comum que o passageiro brasileiro conheça mais os nomes Airbus e Boeing do que a própria Embraer.
Isso está mudando.
A família E2, formada pelos modelos E190 E2 e E195 E2, vem conquistando espaço entre companhias aéreas de diferentes países. O programa ultrapassou a marca de 500 pedidos firmes no segundo trimestre de 2026 e já possui clientes em todos os continentes. A carteira total da Embraer chegou a US$ 34,5 bilhões no período, o sétimo recorde consecutivo da empresa.
E existe uma razão bastante prática para esse crescimento.
Nem toda rota precisa de um avião gigantesco.
Um jato com capacidade menor pode ser exatamente o que uma companhia precisa para ligar cidades médias, mercados regionais e destinos internacionais sem depender exclusivamente dos grandes aeroportos de conexão.
É aí que o E2 encontrou seu espaço.
O E195 E2, maior integrante da família, é o maior avião comercial já produzido pela Embraer e pode transportar até 146 passageiros, dependendo da configuração. O conceito é relativamente simples: oferecer capacidade suficiente para uma rota ser economicamente viável, mas sem carregar dezenas de assentos vazios.
Parece óbvio. E justamente por isso chama atenção.
Durante anos, o mercado ficou concentrado em aeronaves maiores produzidas por Airbus e Boeing. Ao mesmo tempo, as companhias aéreas passaram a enfrentar filas enormes para receber novos aviões de corredor único. A escassez de aeronaves e os problemas nas cadeias de fornecimento abriram uma oportunidade para fabricantes capazes de entregar aviões menores em prazos mais curtos.
A Embraer soube ocupar esse espaço.
Além do tamanho adequado para determinadas rotas, o E2 utiliza motores de nova geração e foi desenvolvido com foco em eficiência operacional. Para as companhias aéreas, isso importa diretamente no bolso, já que o combustível representa uma parcela relevante dos custos de operação. Em 2025, segundo dados citados pela FGV, as grandes companhias aéreas brasileiras destinaram entre 17% e 36% de seus custos operacionais ao querosene de aviação.
Menos combustível por voo pode significar uma diferença enorme na conta.
E existe outro detalhe que interessa diretamente ao passageiro: a possibilidade de criar mais voos diretos.
Uma aeronave desse porte pode permitir que uma companhia ligue cidades menores sem obrigar o passageiro a fazer conexão em São Paulo, Rio de Janeiro ou outro grande centro.
Para quem viaja, isso significa menos tempo dentro de aeroportos, menos conexões e, principalmente, menos aquela velha história de precisar atravessar o país para depois finalmente chegar ao destino.
Mas o momento de crescimento também trouxe um episódio que merece atenção.
Nesta semana, uma instabilidade global na recepção dos sinais de GPS afetou aeronaves da família E2. O problema atingiu principalmente a frota de E195 E2 da Azul no Brasil e provocou ajustes operacionais, atrasos e cancelamentos.
Segundo a Azul, mais de 80 voos foram cancelados e mais de 8 mil passageiros foram afetados.
A Embraer informou que acompanha a ocorrência junto aos operadores e ao fabricante do equipamento, a Honeywell. A fabricante também afirmou que a instabilidade não compromete a segurança dos voos, pois os E2 possuem sistemas e procedimentos de navegação que permitem a operação mesmo em condições de instabilidade do GPS.
É importante separar as coisas.
Uma falha que provoca cancelamentos é extremamente desagradável para quem tem compromisso, férias ou conexão marcada. Mas isso não significa, segundo as informações divulgadas pela fabricante e pelas autoridades, que o avião tenha ficado inseguro para voar.
A própria Anac informou que acompanha a situação.
Enquanto o episódio do GPS chama a atenção nesta semana, o cenário comercial da família E2 continua sendo outro. A Embraer já ultrapassou 500 pedidos firmes para o programa e vem ampliando sua presença entre companhias aéreas de diferentes mercados.
No Brasil, Azul e Latam operam aeronaves da família E2, enquanto a Gol também possui pedidos de E195 E2.
No exterior, os aviões já conquistaram clientes como Finnair, Airlink, Luxair, Avelo Airlines e Star Air, entre outras empresas.
E talvez o mais interessante seja justamente o que está por trás desse crescimento.
O E2 não tenta simplesmente ser maior que seus concorrentes. Ele tenta ser adequado.
Adequado ao tamanho da rota, ao número de passageiros e à realidade econômica das companhias.
Num mercado em que colocar um avião enorme em uma rota pouco movimentada pode ser uma conta difícil de fechar, um jato de 140 passageiros pode fazer muito mais sentido.
Para nós, passageiros, isso pode representar uma mudança importante. Mais rotas diretas, mais opções de horários e maior possibilidade de conexão entre cidades que tradicionalmente dependiam dos grandes hubs.
O Brasil já mostrou ao mundo que sabe fabricar aviões.
Agora, a Embraer está mostrando que também sabe encontrar espaço em um mercado dominado por gigantes.
E isso, convenhamos, é uma história que merecia muito mais atenção dos brasileiros.
Porque enquanto muita gente ainda olha para o céu e procura apenas o nome Airbus ou Boeing na fuselagem, existe uma empresa brasileira construindo aeronaves que estão voando cada vez mais longe.
E o E2 está ajudando a mudar essa paisagem.

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