Por trás dos chalés e do frio, existe uma história brasileira construída por portugueses, alemães, mineiros e, principalmente, nordestinos
Campos do Jordão ganhou fama como a "Suíça brasileira" por causa do clima frio, dos chalés e da arquitetura inspirada em diferentes regiões da Europa. Mas a história da cidade é muito mais brasileira do que o apelido sugere. Fundado por portugueses e transformado pela chegada de diferentes grupos de imigrantes e migrantes, o município foi construído por pessoas que fizeram da serra um dos destinos turísticos mais conhecidos do país.
Quem chega a Campos do Jordão pela primeira vez pode ter a impressão de que entrou em algum cantinho da Europa. Chalés, construções de inspiração suíça, arquitetura Tudor, temperaturas baixas e restaurantes especializados em fondues ajudam a criar essa sensação.
Daí nasceu o famoso apelido de "Suíça brasileira".
Só que existe um detalhe que a decoração turística muitas vezes deixa em segundo plano: Campos do Jordão é profundamente brasileira.
E sua história foi construída por gente de diferentes lugares, culturas e sotaques.
A cidade foi fundada em 1874 pelo português Matheus da Costa Pinto, que adquiriu terras na região para estabelecer uma fazenda de gado. Antes disso, a área já fazia parte de caminhos utilizados para transportar ouro entre Minas Gerais e São Paulo.
A ocupação da região ganhou força décadas depois, especialmente com a construção da Estrada de Ferro Campos do Jordão, inaugurada em 1914.
A ferrovia teve participação importante do português Sebastião de Oliveira Damas, que levou trabalhadores de Castelo de Paiva, em Portugal, para atuar na construção da linha.
Os portugueses deixaram marcas profundas na cidade. Famílias se estabeleceram, abriram negócios e preservaram tradições que continuam presentes até hoje, inclusive na gastronomia.
Mas a história de Campos do Jordão não termina nos portugueses.
Durante boa parte do século XX, a cidade ganhou fama como destino para tratamento de pessoas com tuberculose. Em uma época em que os medicamentos ainda eram limitados, acreditava-se que o clima frio, o ar da montanha, o repouso e uma boa alimentação poderiam ajudar na recuperação dos pacientes.
Foi justamente esse movimento que começou a transformar a cidade.
Familiares e amigos dos pacientes passaram a visitar Campos do Jordão. Muitos se encantaram com as montanhas, o clima e as paisagens e começaram a divulgar o destino.
O turismo nasceu, em parte, desse movimento.
Com o declínio da atividade sanatorial, a vocação turística ganhou ainda mais força.
E então chegaram outras influências.
Famílias alemãs também contribuíram para a formação da identidade gastronômica e turística do município. Parte delas chegou depois da presença do navio alemão Windhuk no Brasil, em 1939. Alguns desses alemães acabaram trabalhando principalmente na hotelaria de Campos do Jordão.
A influência pode ser encontrada até hoje em receitas que se tornaram praticamente obrigatórias durante o inverno jordanense, como o apfelstrudel.
Mas talvez uma das histórias mais importantes seja justamente aquela que menos aparece nas fotografias dos chalés.
A dos nordestinos.
A partir da década de 1960, com o crescimento da construção civil e do turismo, trabalhadores nordestinos começaram a chegar à cidade em busca de oportunidades.
Muitos vieram da Bahia e de outros estados do Nordeste. Trabalharam na construção de hotéis, casas, sanatórios e estruturas que ajudaram Campos do Jordão a se transformar no destino turístico que conhecemos hoje.
Ou seja, enquanto alguns projetavam os prédios, outros carregavam material, levantavam paredes e colocavam a cidade de pé.
E isso precisa ser lembrado.
Porque existe uma certa injustiça quando uma cidade é vendida apenas pela arquitetura europeia e sua verdadeira formação humana fica escondida atrás da fachada bonita.
Campos do Jordão não é uma pequena Suíça.
É uma cidade brasileira que incorporou referências estrangeiras.
E talvez essa seja justamente a parte mais interessante de sua história.
O estilo arquitetônico encontrado pelas ruas é resultado de uma mistura de referências. Há construções inspiradas na Suíça, na Inglaterra, na Alemanha e em outras tradições europeias.
O Palácio Boa Vista, residência de inverno do governador de São Paulo e também aberto à visitação como museu, é um dos exemplos dessa influência.
O famoso estilo enxaimel presente em algumas construções também ajuda a criar a aparência europeia que fez a cidade ficar conhecida nacionalmente.
Mas a arquitetura não construiu Campos do Jordão sozinha.
Mineiros também tiveram papel importante. A cidade faz divisa com municípios de Minas Gerais, como Brazópolis, Piranguçu e Wenceslau Braz. A proximidade favoreceu durante décadas a circulação de trabalhadores, produtos e famílias do Sul de Minas.
E os nordestinos continuam fazendo parte dessa história.
Hoje, famílias que chegaram décadas atrás já possuem filhos e netos nascidos em Campos do Jordão. São jordanenses. Fazem parte da cidade tanto quanto os casarões, as montanhas e os restaurantes que recebem milhares de turistas.
É essa mistura que torna o destino tão interessante.
Campos do Jordão espera receber milhões de visitantes ao longo do ano e concentra uma enorme movimentação durante a temporada de inverno. O frio é um dos grandes responsáveis por esse sucesso, mas não explica sozinho por que tanta gente continua voltando.
Há natureza, gastronomia, arquitetura, história e, acima de tudo, pessoas.
Por isso, quando você visitar Campos do Jordão, olhe além dos chalés.
Caminhe pelas ruas, visite os espaços históricos, conheça o Parque Estadual de Campos do Jordão, experimente a gastronomia local e procure entender como aquela cidade chegou até ali.
Porque a verdadeira Campos do Jordão não está apenas na arquitetura que lembra a Europa.
Ela está nas mãos portuguesas que abriram caminhos, nos alemães que deixaram receitas e conhecimento, nos mineiros que atravessaram a serra e nos nordestinos que ajudaram a construir a cidade.
No fim das contas, a chamada "Suíça brasileira" é brasileira até a raiz.
E talvez esteja na hora de contar essa história com muito mais orgulho.


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